Apresentação - Revista Ipê - Gustavo Fontes

Pois

que seja então

consumado o rito,

ato escrito,

gesto que tateia

as fronteiras do interdito,

e busca penetrar, carneadentro,

os enigmas da terra.

Senhoras e Senhores, é chegado o momento!

Tenho a honra a honra e o prazer de lhes anunciar a materialização de um intento; um evento inventivo, enfim, um rebento! que agora rompe a malha da matéria, uma das facetas da vida; e pretende corromper, todas as cercas, todos os muros, as poses dos sem futuro, dos Academico’s Erectu’s, mas nem tão erectus assim...; dos duros, dos caretas, e..., e...; melhor parar. Mas estava eu falando desse cotidiano herdado, e que querem que agente aceite como fato consumado!Hum! Trata-se dessa maneira de lidar com as coisas, os bichos e as pessoas; e descobrir que mais importante que coisas, bichos ou pessoas, existe um lidar! E neste lidar, no simples exercício de bem respirar, de se alimentar, de aprender a semear, colher, compartilhar. Precisamos reaprender a habitar. Habitar, esta palavra contêm um sentido divino. Pois bem, falava ainda deste herdado cotidiano, infestado que está, (que estamos! todos ou quase todos) do pharmákon, e suas doses cada vez mais toleráveis de café, cigarros, álcool, maconha, cosméticos; e outras drogas, sujas como o crack, os nossos esgotos desembocando nos rios; ou a pedantia.

Isto para não falar da ingestão involuntária de violência e de luxúria, e todo este caos urbano. Estamos em plena hybris, do cotidiano da Texyn; e do desengano. Este é o nosso desmedido drama pós séc.XX, pós-guerras; pós-ditaduras, e ainda compartilhamos com o mundo, todos os terrorismos contemporâneos, midiáticos; agora mais do que nunca, em escala global. Neste sentido não posso me furtar a dizer, ou insinuar (que seria ensinar com nuances); oh, agora diriam, ou dirão os covardes de espírito, ele falou em ensinar. Pois lhes digo que não há aqui a mínima modéstia em dizer que poucos, muitos poucos d’entre nós são capazes de reconstituir em breves linhas, com nexo, a história das grandes massas globais de habitação humana sobre a terra. Suas interações com o meio, com os outros. Basta esta simples questão, e se abrirão largas as portas para a grandeza da historicidade do fenômeno humano.

E então, nos daremos conta de que este nosso desmedido drama contemporâneo, brasileiro, surge concretamente, enquanto domi-Nação como a continuação de um impulso “humanizador”, “civilizador”, o qual adquiriu forma plena, no séc. XIX. Quando houve a completa formalização de um novo paradigma de mundo, surgido ainda no séc. XVI, a partir do primeiro mapa de todo o globo terrestre, quando todos os continentes e culturas foram integrados, ao primeiro “sistema mundo” da história da humanidade, euro-centrado, que vem, desde então, imperando sobre o planeta; a partir de sua eficácia técnica, científica; militar; econômica; e também de discurso, claro, o “euro-dito”.

Eu falo isso, porque tenho de falar. Sou brasileiro, e como poucos brasileiros, latino-americano... me reconheço como parte deste continente maior que nos abriga! E muito me intriga, por exemplo, esse boicote bibliográfico, tanto das editoras quanto das academias brasileiras, de não trabalharem com a literatura em espanhol, castellano. Eles, para dizer o mínimo, já traduziram tudo de que há de mais relevante na história da cultura. E digo isto também porque já estou farto deste discurso bem comportado, ornamental, Instrumental, transcendente. Vamos construir nossa modernidade, a deixa já foi dada, Antropofagia neles! Para os que se interessam... para os verdadeiramente envolvidos em dinâmicas de ensino e/ou pesquisa, a Universidade é um espaço maravilhoso de trocas, aprendizados e experiências. Mas sua estrutura ainda é muito hierarquizada, e mesmo nos textos, os sagrados, e seus curas oficializados, sempre citados, como peixinhos ao redor de grandes tubarões, quase sempre anglo saxônicos. Pois que não preguem! Mas que aceitem que o melhor pensar, ao menos o mais saudável, habita no diálogo. Se precisamos de um conceito, que seja o melhor viver entre os nossos, humanos iguais em liberdade e saúde, em possibilidades para o diálogo.

Mas para isso, é preciso que nos libertemos destas técnicas asfixiantes, da cultura de massa, da imperiosa mediocridade dos meios de comunicação. Neste ambiente, não há espaço para aperfeiçoar a sensibilidade. A palavra estética, vem do grego “eystesis“, que quer dizer sensibilidade. E aqueles sim! Souberam como poucos, aperfeiçoar os sentidos para o fenômeno humano. Não é por menos, que seus clássicos tão forte ainda reverberam em nossos desenganos.

Mas vamos falar dos nossos, que estão em larga medida embriagados de sexo, álcool, e de consumo; que não aprenderam na escola mínimas regras de alimentação, em qualquer sentido que se dê a uma dieta saudável; que não sabem nada sobre plantar, cuidar da terra; que apenas agora, com o prenúncio do colapso ambiental, começa a pensar uma maneira sustentável de habitar a superfície do planeta.

Veja, isto é o mínimo, pois o que a natureza ou a terra estão dizendo, é simples e claro: a maneira humana de habitar a superfície do planeta é insustentável. Esse modelo, escolhido e imposto, principalmente no último século, com o advento científico-industrial de uma tecnologia baseada no petróleo, no motor a combustão, na indústria química (farmacêutica), e na fissão do átomo; está envenenando a Terra!!

A terra precisa ser, antes de calculada, percebida como recurso renovável, abundante doador de vida. É urgente a necessidade de dar um basta a esta dinâmica da poluição, da miséria e da desigualdade; do envenenamento enfim!

Vamos nos embriagar de modernidade líquida, de racionalidade contra-hegemônica, Salve Tom Zé, Abujamra (que me despertou do sono dogmático), Egberto, Hermeto, Naná; o grande Evaldo Coutinho, e por que não Oswald de Andrade? nosso pai da horda antropofágica; Salve a lucidez de Vicente Franz Cecim, , Gullar, Paulo Freire, Celso Furtado, Augusto Boal, e tantos e tantos outros, que por suas vivência e posturas, jamais passaram ou passarão despercebidos, mesmo que nunca venham a tornar-se conhecidos; enfim, tudo que se produziu de pensamento autêntico, auto-centrado, localmente implicado. Antropofagia neles! em todos eles! Precisamos mais do que nunca ficar fortes, pois sinto se anunciar uma grande batalha contra-hegemônica em nosso horizonte.

Precisamos desconstruir esta retórica institucionalizada, e globalizada, da carência, e do subdesenvolvimento. È apenas retórica. E cá entre nós, estamos melhor em felicidade e fluidez; em afirmação do ser. Pois temos um corpo erotizado, bem temperado pelo trópico de câncer. Carnava!! Agora claro que infelizmente, por ser tão potente, se tornou especialmente suscetível as técnicas de dominação de massa; que exercem seu comando estendendo suas rédeas sobre estímulos, pulsionais, primitivos, como o sexo e a violência; com a técnica de repetição até o entorpecimento ( e este argumento é aristotélico, quando diz que a melhor retórica é a da repetição); mas que em nosso meio estão especialmente fortalecidos pela ignorância e pela hipocrisia.

Este poder, de afirmar com tanta convicção o ser, o corpo, em meio a grande adversidade, é o nosso paradoxo!, a nossa missão, o nosso enigma enquanto nação. E o mundo inteiro, hoje, está interessado em nossa Esfinge. E é bastante oportuna aqui a imagem de esfinge, em nosso caso amazônica, pois pode-se dizer que a humanidade hoje tem que resolver a questão urgente, da Amazônia, ou da Água, por exemplo. E esta questão, é algo mesmo no nível de decifra-me ou te devoro!

Em suma, eis aí uma revista que é resultado de um grupo de companheiros, que estão se tornando amigos, com interesses afins, jovens ou não, estudantes ou não, uma moçada bonita e boa de conversa; que assumiu, sobre vários aspectos, e através de iniciativa diferentes e convergentes, o compromisso com um novo paradigma, como algo urgente!! Claro que a ser discutido, repensado, criticamente construído; a partir de um pensamento localmente implicado; socialmente consciente de nossa contemporaneidade, do consumo globalizado, e de massa; pronto para realizar e tematizar a cultura, de ma maneira alternativa, contra-hegemônica, humanamente o mais includente possível, para ser capaz de dizer que “nada do que é humano, me é indiferente”.

O intuito maior de realizar este ato, materialmente em papel, é para que desta concretude, surja um espaço, com um horizonte de limites e possibilidades de diálogo, as artes, desenho, fotografia, gravura, charge, arquitetura, o cinema claro!; poesia, literatura, crônica; música não pode faltar; e sobretudo que a divina ironia se faça presente, pois sem sorriso, também não há quem agüente! E quem tiver o que falar sobre política, sociedade, cultura, epistemologia ou brega, funk, futebol, Mc’Donalds ou Chavez, ou sei lá o quê, pode mandar (só vai ter que ter também, o compromisso de mostrar a cara, e assinar os textos, beleza?) Pois que sintam-se todos em casa, fiquem a vontade, estamos completamente abertos a qualquer diálogo criador, crítico-construtivo, que ajude-nos a perceber e fomentar o que há de relevante, de maneira horizontal e includente. Publique-se!

Gustavo Fontes


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